A influência de Tolkien na música do Blind Guardian

Por Gustavo Rondina - gustgr [at] sdf [dot] lonestar [dot] org

John Ronald Reuel Tolkien criou um universo maravilhoso, um universo que nos tira da realidade e nos leva para tempos longínquos: da a criação do mundo ao aparecimento dos povos e seus desfechos. Este grande mestre da Literatura Inglesa influenciou, e continua exercendo influência em diversas áreas do desenvolvimento cultural humano: contos, histórias, filmes, jogos, desenhos, livros, mitos e na música. E é para este último item que este texto se volta; especificamente para um estilo musical, o metal; e para uma grupo de metal, o Blind Guardian, "Os Bardos do Metal", como são chamados pelos fãs.

Em 1985, na pequena cidade de Krefeld na Alemanha, quatro jovens mal saídos do colégio deram início a uma banda de metal chamada Lucifer's Heritage . Seu estilo era trash metal, um som bem mais pesado (em termos de bateria e vocal principalmente) do que o Blind Guardian faz hoje. Sua primeira música gravada, uma demo, foi "Symphonies of Doom", mas não fez muito sucesso em território germanico. A formação do Lucifer's Heritage, os quatros jovens que deram iníncio à banda, eram Hansi Kürsch no vocal e no baixo, André Olbrich na guitarra e back vocal, Marcus Siepen na guitarra e Thomas Stauch na batera, mais conhecido como Thomen.

Apesar de sua primeira demo não ter feito muito sucesso no cenário do metal, o Lucifer's Heritage gravou uma outra música, chamada "Battalions of Fear", no ano de 1986, com a participação de dois novos integrantes: Hans Peter Frey na bateria e Cristoph Theissen na guitarra. Porém, esta formação não durou muito tempo e a formação orignal permaneceu. Apesar de tudo, "Battalions of Fear" fez um tremendo sucesso no território do metal e com o sucesso veio a mudança do nome da banda para Blind Guardian. Em 1988 o Blind Guardian lançou seu primeiro disco, chamado "Battalions of Fear;, que obteve bastante sucesso. O primeiro álbum da banda trouxe grande influência do Lucifer's Heritage, principalmente se tratando no estilo trash metal.

Já em seu primeiro álbum podemos perceber a forte influência do mestre JRR Tolkien. O drama de Frodo é narrado na música Majesty, presente no álbum. O vocalista da banda disse que queria reproduzir a emoção que sentiram ao ver Frodo se aproximando da Montanha da Perdição, o ritmo da musíca é uma tentativa de repdroduzir este sentimento. Isso é um dos fatos que fazem muitos leitores de Tolkien apreciarem o Blind Guardian. O leitor se identifica muito com a música, sabe quais os sentimentos que ele teve ao ler determinado trecho, e o reconhece refletido na música. Isso é claramente perceptível em músicas como "Gandalf's Rebirth" e "By The Gates of Moria", que são exclusivamente instrumentais e não há necessidade de letra para mostrar a influência tolkieana, pois, segundo o proprio Hansi, a fantasia de de Tolkien se encaixa perfeitamente no heavy metal. Essas músicas instrumentais mostram a ambição ao clássico de uma forma "metalizada" do Blind Guardian.

Em 1989 a banda lançou seu segundo disco, intitulado "Follow the Blind", que ainda têm alguma influência do trash, com uma música agressiva e veloz. Este disco não trouxe nenhuma (ou quase nenhuma) música inspirada por Tolkien. Apesar do som do Blind Guardian, instrumentalmente falando, sempre tenha sido inspirado pelo mestre, neste álbum esta influência não é demonstrada através das letras. A inspiração para esta produção é mais na mitologia nórdica, como mostrado na música Valhalla, justamente na qual há a participação de Kai Hansen (Helloween / Gamma Ray / Iron Saviour). "Follow the Blind" é um álbum que traz clássicos do Blind Guardian, clássicos esses que durarão para sempre, como Valhalla já citada, Banished From The Sanctuary e a musíca que intitulou o disco, Follow the Blind. Traz também dois covers: Don't Break The Circle do Demon e Barbara Ann do Beach Boys.

Em 1992 veio à tona o terceiro disco do grupo: Tales From The Twilight World. Foi um passo muito importante o lançamento deste álbum, pois tornou o Blind internacionalmente famoso, com muito mais fãs do que conquistara com os sucessos anteriores. Este álbum também mostra como o som da banda seria no futuro: um som mais maduro e experiente, quase sem influência do Lucifer's Heritage, porém mantendo a velocidade sonora, uma tendência mais melódica e de power metal, com um toque épico, uma perfeita harmonia. Este é um dos melhores álbuns do Blind Guardian e é dificil dizer um sucesso desse álbum que não é um clássico do Blind. O disco conta novamente com a participação de Kai Hansen no vocal e na guitarra de algumas músicas.

Este álbum traz bastante influência de "O Senhor dos Anéis", como podemos notar na letra de The Lord Of The Rings, que narra a história do Anel e da Guerra do Anel claramente, trazendo até alguns versos tirado do próprio livro, a música se baseia no verso do anel. Esta música realmente é um dos maiores clássicos do Blind Guardian entre os fãs, apesar de ser uma música de estrutura simples e um som bem suave. Como a música é uma homenagem à um Hobbit, Frodo, que vem de um povo simples, a melodia e a letra também são bem simples e voltadas para o povo. A musica The Last Candle traz também elementos tolkieanos como orcs, magos, elfos e anões. O Tales From The Twilight World nos mostra letras mais trabalhadas em relação aos discos anteriores.

Já com bastante sucesso após o Tales (nem tanto sucesso assim, mas com uma quantidade de fãs considerável), em 1992 lançaram um dos melhores discos: Somewhere Far Beyond. Por incrível que possa parecer, ficou tão bom (ou até melhor) que o Tales From Twilight World. A produção mostra a evolução do Guardian como músico e compositores, e traz elementos diferentes, iniciando com os diferentes ritmos das músicas. O metal é bem mais melódico e dramático do que jamais visto na banda, marcando o início de uma transição para um metal não tão "speed" e menos agressivo que se vira anteriormente.

Com Hansi mostrando todo seu poder vocal em incríveis coros e André propagando seus solos por terras além da escuridão, este álbum com certeza se inspirou muito em Tolkien. Uma das músicas mais tolkieanas que o Blind produziu esta nesse álbum, e é definitivamente o Hino de todos os Bardos ao redor do mundo: The Bard's Song - In The Forest. Um melodia acústica memorável acompanhada da melódica voz do Bardo de muitas vozes. Esta música, quando tocada na turnê é de estarrecer: o público e Blind se tornam um, a união dos bardos é paralisante para quem assiste, um espetáculo inacreditável que espantaria até mesmo o Senhor do Escuro, sentado em seu trono de pedra!

Outra música deste álbum, The Bard's Song - In The Hobbit, também é mais um fruto das obras de Tolkien. A música é mais rápida e mais progressiva do que In The Forest, porém muito bela e completa. Ela narra praticamente todo o Hobbit, do início ao desfecho: é incrível como é possível dizer tanto em tão poucas palavras. O disco conta também com a majestosa Theather Of Pain, que mostra uma preocupação ambiental, um tema mais natural, fugindo um pouco ta mitologia da Terra-Média. Theater of Pain também foi gravada na versão clássica, apenas instrumental. Nesta álbum a banda fez outro cover, desta vez do Queen, na música Spread Your Wings. Até hoje o Queen se mostra como uma forte inspiração para os membros da banda.

Com o crescente sucesso e fãs espalhados pelo mundo todo, a turnê teve de crescer. E desse crescimento resultou o primeiro (e único até então) álbum ao vivo oficial do Guardian. O disco leva o titulo de Tokyo Tales, pois foi gravado no Japão. Nesta gravação podemos notar a assombrosa e fantástica performance da banda ao vivo. Músicas como Welcome To Dying e Valhalla contam com grande participação do público nipônico, que são grandes fãs dos Bardos Alemães. Apenas escutando não é possível perceber a imensidão e a grandiosidade do concerto, ver os Guerreiros ao vivo deve ter sido algo estupendo. Pudera eu estar lá para dar mais detalhes sobre o show, sobre a decoração do palco e sobre o comportamento do público. Não há muito o que se falar sobre o disco, não trouxe músicas novas, obviamente, apesar de ele em si ser uma grande novidade inesperada. Foi gravado em 1993, apenas um ano depois do lançamento de Somewhere Far Beyond. Mas o melhor ainda estava por vir.

Após o live em Tokyo, algum tempo se passou antes de um novo sucesso ser lançado. Mas valeu a pena esperar. Em 1995 o Blind Guardian lançou o disco que é considerado pelos fãs de metal um dos melhores álbuns da década de 90. Imaginations From The Other Side se mostrou o melhor trabalho do grupo até então. É incrível, quando você acha que eles não podem melhorar eles conseguem se superar. E foi isso que aconteceu. A temática do disco é totalmente medieval, do início ao fim. Algumas músicas narram a história do Rei Arthur e da Távola Redonda, como A Past And Future Secret e Mordred's Song. Ao ouvirmos o disco viajamos. Viajamos no espaço e no tempo: somos transportados para a Idade Média em uma terra fria, repleta de cavaleiros e belas donzelas, de guerras sangrentas e com reis vingativos. Podemos ver o sangue derramado no chão, o guerreiro definhando postado em frente ao seu exercito abalado. Estas histórias e esta sensação estão associadas ao Professor, que serviu de insipiração para retificar todas essas histórias e a fantasia medieval. Músicas que se superaram em qualidade e em perfeição acompanham este disco: Imaginations From The Other Side, e, uma das minhas preferidas, And The Story Ends. Belos ritmos como Bright Eyes também estão inclusos. Como diria o velho Gríma Lingua-de-Cobra, belos e frios, como uma manha de primavera que ainda traz vestígios de um inverno rigoroso. O album demonstra de forma clara o amadurecimento da banda e o empenho em produzir novamente letras tão boas quanto suas melodias.

Em 1996 o Guardian lançou seu sétimo disco, mas este não trouxe grandes novidades em relação a novas composições, apenas algumas antigas regravadas. Bem, eu disse apenas ? Desculpe esta falha, pois foram regravações mágicas. Bright Eyes, Lord Of The Rings, Black Chamber e A Past And Future Secret foram regravadas na versão acústica, o que deu um drama a mais e tornou a melodia muito mais bela e medieval. The Bard's Song - In The Forest foi gravada ao vivo. Nela podemos perceber o amor e a devoção dos fãs para com os bardos. O público canta a música toda, é um espetáculo emocionante. O álbum trouxe também outros covers: Barbara Ann (Beach Boys), Mr. Sandman (música tradicional americana), The Wizard (Uriah Heep) e Long Tall Sally (Little Richard); mas creio que o melhor cover foi To France, música original de Mike Oldfield. Um disco desse tipo (regravações de sucessos antigos) geralmente é enfadonho e não muito convidativo, mas este foi soberbo. Foi tão aclamado como um novo lançamento.

Até então o Blind Guardian possuía muitos fãs, inclusive no próprio meio musical, mas só em 1998 que todo o esplendor da banda (IMHO) foi mostrado ao público, e o mundo todo tomou conhecimento da grande capacidade tanto de composição como de musicalização do grupo. Com o lançamento do disco Nightfall In Middle-Earth, o Blind Guardian fez uma grande homenagem ao Professor Tolkien. O album narra nada mais nada menos do que o livro 'O Silmarillion', desde a investida de Melkor e Ungloiant contra Valinor para a captura das Silmarills até o feitiço lançado por Morgoth à Hurin. O disco é simplismente indescritível. A capa, feita por Andreas Marschall,traz uma bela gravura, mostrando Morgoth sentado em seu escuro trono com sua coroa com as Silmarills, e o mesmo esta enfeitiçado ao ver a bela Lúthien Tínuviel dançar na sua frente, e Beren sob a pele de lobo está à sua esquerda. É exatamente como imaginávamos. O encarte do cd vem com uma pequena história escrita por Hansi Küsch (vocal) com um dos filhos de Fëanor narrando os fatos acontecidos. O album vendeu muitas cópias, mais do que todos os outros sucessos do Blind, e valeu a pena (financeiramente falando). Atores foram contratados para ler trechos do livro, e também o próprio Hansi. Para a produção do Nightfall um baixista foi contratado, Oliver Holzwarth. Muitos países assistiram ao tour do Blind Guardian em 1998, inclusive o Brasil. Não estive lá, mas amigos meus que estiveram (fãs de Tolkien e do Blind) disseram que foi o show mais incrível da vida deles.

A disposição das músicas no disco é interessante. A obra inicia-se com uma diálogo negro entre Morgoth, O Sinistro Inimigo do Mundo, e Sauron, seu fiel servidor. As músicas são, em sua maioria, intercaladas com pequenos trechos adaptados do livro, como a faixa 3, chamada 'Lamoth', que taz o grito de desespero que Morgoth deu ao ser envolto nas teias de Ungloiant. O disco traz faixas como Noldor (Dead Winter Night) que conta toda a maldição que caiu sobre o povo de Fëanor; Nightfall nos mostra as tristes lágrimas de Yvanna e também a morte de Finwë, senhor dos Noldor, tão bem como Mandos amaldiçoando Fëanor. O disco é a maior homenagem que se poderia ter feito ao Mestre. Não vou dizer mais pois, quem não ouviu, só conseguirá entender o que eu digo quando ouvir.

Quatro longos anos se passaram antes do lançamento do novo disco. O Nightfall fez um tremendo sucesso, e era necessário lançar algo à altura quando um novo album viesse. E foi o que aconteceu. Em 2002 o Blind Guardian lançou o disco A Night At The Opera. Com muitos coros, muita instrumentação, ritmos inovadores, o disco se mostra um dos melhores trabalhos do grupo. Ele traz uma das melhores músicas já produzidas. Com 14 minutos, And Then There Was Silence narra a história dos acontecimentos da Guerra de Tróia, é uma adapatação da epopéia épica de Homero. O Blind Guardian não quis fazer outro disco sobre Tolkien pois não queriam ficar conhecidos como "a banda de Tolkien". Eles querem ter seu próprio estilo e fazer música em cima de muitas temáticas, como sempre vem acontecendo. A tourne foi muito grande novamente, e novamente vieram para o Brasil. O show em São Paulo foi o melhor que eles já fizeram. O palco decorado com apenas uma pequena bandeira com um dragão, em homenagem ao mestre, foi realmente palco de uma ópera medieval. O show foi exatamente no dia do aniversario do Hansi, e o publico cantou os parabéns em inglês e português. Até os músicos ficaram comovidos com o público. Correm boatos que o Blind vai lançar um disco ao vivo, com uma música ao vivo de diferentes países que tocaram, porém, alguns dizem que eles vão lançar um album apenas do show de São Paulo, de tão excelente que foi.

Bem, acabamos por aqui. Quero lembrar que não sou nem músico nem escritor, apenas um fã de Blind Guardian e do grande Tolkien. Escolhi mostrar a íntima relação da banda com o mestre através da discografia, pois assim pude ser bem preciso. Claro que este artigo não é uma biografia do Blind Guardian, apenas um breve "review" de seus discos. Escrevi pois comecei a gostar de Tolkien devido ao Blind Guardian. Espero que aqueles que não conheçam o Blind Guardian mas conheçam Tolkien, se interessem pelas músicas do grupo. Ou o contrário, como aconteceu comigo.

"Bards you are, Bards you will be and Bards you have always been." --Blind Guardian

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